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“Precisamos mostrar a importância da pesquisa clínica”, afirma Eduardo Moacyr Krieger, mestre da hipertensão


Quando formou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina de Porto Alegre, em 1953, o Prof. Dr. Eduardo Moacyr Krieger não imaginava tornar-se um dos principais estudiosos dos métodos reguladores da pressão arterial no Brasil. Sua contribuição científica permitiu incluir o País no radar internacional de pesquisas clínicas e experimentais relacionadas à hipertensão arterial, doença que acomete certa de 30% da população adulta brasileira.

O plano do professor Krieger, depois de formado, era desenvolver-se na cardiologia clínica. Porém, sob influência de nomes proeminentes nos estudos relacionados à hipertensão – os fisiologistas Bernardo Houssay, Nobel de Medicina em 1947, e Eduardo Braun Menéndez, responsável pela descoberta da angiotensina, em 1940 –, sofreu uma mudança de rota, que geraria avanços importantes às pesquisas sobre hipertensão arterial no Brasil.

Dr. Krieger passou quase trinta anos em Ribeirão Preto desenvolvendo pesquisas na área básica. Em 1985, veio a São Paulo com a missão de coordenar uma ação conjunta de grupos de pesquisa do Instituto do Coração (InCor) e do Hospital das Clínicas (HC.FMUSP), ao lado do Prof. Dr. Marcello Marcondes Machado. O trabalho desenvolvido, e que se estende até hoje, gerou um grupo multidisciplinar, envolvendo pesquisas clínicas, básicas, áreas de biologia molecular e de estudos com focos específicos.

Em entrevista para o site da Sociedade Brasileira de Hipertensão (SBH), o professor Krieger falou sobre a sua trajetória e deu destaque à necessidade de que o Brasil consolide grupos de pesquisa clínica nos hospitais universitários. Segundo ele, uma mudança cultural que posicione a pesquisa clínica como regular nas universidades favorece o conceito de medicina translacional, em que o conhecimento científico é efetivamente revertido em melhorias no atendimento à população. Dr. Krieger é o coordenador do estudo ReHOT, que tem como objetivo determinar a prevalência de hipertensos resistentes no Brasil. Os resultados preliminares do estudo foram apresentados no XXIV Congresso da Sociedade Brasileira de Hipertensão, em julho deste ano.

A seguir, confira a íntegra da entrevista concedida pelo professor Krieger à SBH:

Gostaria que o senhor falasse um pouco sobre como teve início a sua trajetória no estudo dos mecanismos reguladores da pressão arterial.

Bom, eu me formei em Porto Alegre em 1953 e já estava trabalhando em uma enfermaria de cardiologia com o Prof. Rubens Maciel. Minha ideia era ficar na universidade fazendo cardiologia clínica, que era o que existia naquela época. Mas aí surgiu, por intermédio do Prof. Rubens Maciel, um convênio entre a CAPES e a escola de fisiologia do Prof. Bernardo Houssay, prêmio Nobel de Medicina de 1947, para montar em Porto Alegre um grupo capitaneado pela escola argentina, para treinar novos fisiologistas para o País. E assim foi que eu tive contato com o Prof. Eduardo Braun Menéndez, descobridor da angiotensina. Foi amor à primeira vista. Trabalhei com ele em Porto Alegre, depois fui a Buenos Aires.

Eles me propuseram, então, um programa de treinamento no exterior para que quando eu voltasse fizesse meio tempo de fisiologia e meio tempo na parte clínica de cardiologia. A Rockefeller Foundation daria a bolsa. E isso foi feito. Eu fui aos Estados Unidos, comecei a parte de fisiologia, trabalhando com o Prof. William Hamilton na Universidade de Georgia. O outro professor, coordenador do curso, era o Raymond Ahlquist, que descobriu os alfa e beta adrenorreceptores. Mas aí houve problemas em Porto Alegre para, na minha volta, dar continuidade na fisiologia, e então tive que escolher: voltar a Porto Alegre e fazer só a parte clínica ou ir a Ribeirão Preto para fazer só a pesquisa básica. Lá estavam formando a faculdade de Medicina. Isso foi em 1956, 1957, e a primeira turma havia começado em 1952. Havia lá um convidado, um dos membros da escola do Prof. Houssay, o Miguel Covian, da Argentina, que era um neurofisiologista, para organizar a fisiologia em Ribeirão Preto.

Nessa época não havia muitas pesquisas brasileiras consolidadas, certo?

Não. O Miguel me convidou para vir e eu, lá do exterior, tive que decidir. Eu optei, então, por Ribeirão Preto. Cheguei em 1957. Encontrei um ambiente fantástico, em uma faculdade dentro da Universidade de São Paulo, e com características muito próprias para padrões brasileiros. Todos os membros em dedicação exclusiva, inclusive o pessoal da área clínica, todos voltados à pesquisa, com recursos materiais muito bons, fornecidos pela Rockefeller Foundation. A infraestrutura era notável.

Lá eu tive uma influência muito forte de colegas de neurofisiologia, então procurei usar o sistema nervoso na hipertensão. Comecei a fazer pesquisas em hipertensão e descobri algumas coisas muito importantes em ratos, como a distribuição dos nervos que regulam a pressão arterial – os pressurreceptores ou barorreceptores. Fiz uma carreira de 30 anos em Ribeirão Preto na pesquisa básica, toda ela em hipertensão experimental. Estudamos os diferentes aspectos do comportamento da pressão, a pressão durante o sono, fizemos trabalhos pioneiros nos ratos sobre a influência do sono na pressão arterial, já estava começando também alguma coisa relacionada à prática de exercícios físicos. Nós tínhamos um grupo importante e reconhecido de estudo de hipertensão em Ribeirão Preto. Eu colaborei com o Sérgio Ferreira na descoberta dos inibidores da enzima conversora, em um estudo que foi publicado pelo Lancet.

Outra coisa que vale ser destacada de Ribeirão Preto é que, por conta dos meus trabalhos, eu passei a ser conhecido internacionalmente. E fui convidado, então, a participar da criação da Sociedade Interamericana de Hipertensão, tendo sido o primeiro vice-presidente e, posteriormente, o primeiro presidente da América Latina. Fizemos parte também da Sociedade Internacional da Hipertensão. E com isso trouxemos também simpósios ao Brasil, abrimos as portas do Brasil para essa área. Acho que essa repercussão do nosso trabalho foi muito favorável no sentido de colocar o Brasil em contato com a parte internacional de hipertensão.

Fiquei em Ribeirão Preto de 1957 a 1985. O resultado disso, hoje, é muito interessante. Há três anos fiz um balanço rápido do numero de doutores que foram formados no meu grupo, e conseguimos identificar uma média de 200 doutores enquanto estive em Ribeirão Preto, isso sem contar São Paulo.

E foi aí que o senhor veio a São Paulo?

Nessa época eu estava com 56 anos de idade, já tinha 30 anos de serviço na universidade, além do tempo em pronto socorro que fiz em Porto Alegre e, em suma, tinha tempo para aposentadoria. E eu me dava muito bem com o Oswaldo Ramos, que era da Escola Paulista de Medicina, que fazia a parte clínica e alguma coisa experimental, e o Marcello Marcondes, da Faculdade de Medicina, que era professor de nefrologia.

Então, eu conhecia muito bem os grupos que faziam pesquisa clínica não só aqui no complexo do Hospital das Clínicas como também na Escola Paulista. Em Ribeirão, naquela época, não tinha gente na área clínica interessada em hipertensão. O meu contato, então, e a nossa representação brasileira no exterior se dava com esses grupos de São Paulo – eu em Ribeirão Preto e eles aqui em São Paulo. Então eles me convidaram a vir a São Paulo. Foi muito interessante porque tanto a Escola Paulista como o InCor, pelo Marcondes, propuseram que eu me aposentasse em Ribeirão Preto e viesse a São Paulo para um novo esforço, uma nova etapa. E eu aceitei, achei que seria um bom desafio.

Como foi tomar essa decisão?

Não foi fácil, porque minhas condições de pesquisa em Ribeirão Preto eram muito boas. Estávamos começando a utilizar computação em pesquisa cardiovascular. Mas naquela época já havia membros da equipe de Ribeirão Preto em livre docência, então eu vi que a coisa poderia andar sem mim. Aquilo me tranquilizou. Eu realmente deixei tudo lá, não trouxe nada ao InCor. Uma das condições que eu apresentei era que eles me dessem a aparelhagem completa, porque eu não mexeria na aparelhagem e nos laboratórios que eu tinha em Ribeirão Preto.

A única coisa que eu trouxe de Ribeirão Preto foi o técnico Edson, que trabalhava comigo havia muitos anos. Eu vi que era fundamental esse técnico para começar a parte experimental aqui. Fui um dia a Ribeirão Preto, reuni a turma que trabalhava comigo na chefia dos laboratórios, e disse: “olha, eu tenho um assunto meio delicado para tratar. Gostaria de levar o Edson para São Paulo”. Eles deram risada e disseram: “leve, por favor, porque ele acha que é o dono do laboratório. Pode levar!” O técnico tinha se formado no laboratório, então se considerava superior a eles (risadas). E aí comecei então no InCor.

E ele veio mesmo?

Veio e ainda está por aí, quase se aposentando. Bom, começamos aqui no InCor. Ninguém fazia hipertensão experimental por aqui. Eu, no início, fiquei encarregado de fazer a coordenação da hipertensão aqui no InCor e do grupo de hipertensão do Hospital das Clínicas com o Marcello Marcondes, que era o titular de nefrologia. Criou-se até um protocolo de ação conjunta. Nós teríamos essas duas unidades de hipertensão, e teríamos um programa reunindo as duas unidades sob minha coordenação. Isso começou a andar, até que um dia o diretor aqui me chamou aqui e disse: “olha, você vai ter que pegar a chefia da hipertensão do InCor”. Eu estava fazendo praticamente só a parte básica, e eles faziam a parte clínica.

Eu fiquei muito preocupado de começar a fazer investigação clinica por obrigação, porque se eu viesse a chefiar a parte clínica eu teria que fazer. Bom, o fato é que eu aceitei e aí começou uma nova fase em que eu tinha já o laboratório de hipertensão experimental organizado no subsolo, as coisas estavam andando, e aí comecei a tarefa de desenvolver a investigação clínica. Montamos os laboratórios, começamos a fazer monitorização de pressão arterial, começou toda a parte de minha atuação de coordenação em um grupo muito bom.

Uma coisa muito importante que ocorreu é que o meu filho [José Eduardo Krieger] se formou em Ribeirão Preto no mesmo ano em que eu vim a São Paulo. Ele se formou no fim de 1984, em janeiro foi aos Estados Unidos e eu vim a São Paulo. Ele fez um doutorado na área básica, de cardiovascular e quando terminou, depois de quatro anos, a biologia molecular estava entrando firme na pesquisa de hipertensão. E aí, em vez de voltar ao Brasil, foi estagiar em Harvard pra fazer a parte de biologia molecular na hipertensão. Quando ele voltou ao Brasil, unimos à biologia molecular à pesquisa básica e à pesquisa clínica.

Mais um campo de pesquisa foi integrado.

Montou-se um grupo realmente multidisciplinar. Com verba da Fapesp, o nosso grupo começou a fazer uma pesquisa integrada, em que você tinha tanto a parte básica como a clínica, biologia molecular, exercício... Essa foi a história da minha atuação no InCor.

Antes de chegar a São Paulo, então, o foco das suas pesquisas era a pesquisa experimental?

Sim, eu não fazia nenhuma pesquisa clínica. Os clínicos estavam em São Paulo. Nessa segunda etapa em São Paulo é que inauguramos a pesquisa integrada. Esse foi o mérito da nossa atuação no InCor. E hoje temos aí um grupo enorme atuando nas diferentes áreas de pesquisa. Alguns grupos se diferenciaram, com focos diferentes como apneia, metabolismo etc. Aquilo que pretendemos fazer, em parte, conseguimos. Evidentemente ainda tem muita coisa a ser feita.

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