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Obesidade: um desafio para a medicina no século 21

Sociedade Brasileira de Hipertensão alerta para epidemia do sobrepeso e sua correlação com o aumento da pressão arterial



O significativo aumento da obesidade ocorrido nas três últimas décadas está longe de acabar. Na verdade, a previsão é de que o quadro se amplie ainda mais nos próximos anos, expondo cada vez mais pessoas ao risco de doenças como hipertensão arterial, diabetes, doenças cardiovasculares, apnéia do sono, osteoartrite e até mesmo câncer. Trata-se, portanto, de um dos principais desafios da saúde pública e da medicina no século 21. Partindo dessa constatação, o professor Allyn L. Mark, da Universidade de Iowa, publicou um artigo pela American Heart Association, em que discute a prevenção e desafia alguns dos principais dogmas dos tratamentos para a obesidade.

“Trata-se de uma questão extremamente atual e de difícil solução, analisada de maneira essencialmente científica. A atual epidemia de obesidade continua a exigir da comunidade médica e científica mais aprofundadas pesquisas, análises e estudos,” ressalta Artur Beltrame Ribeiro, presidente da Sociedade Brasileira de Hipertensão. “A preocupação da Sociedade Brasileira de Hipertensão com o tema é grande, uma vez que os riscos de um indivíduo contrair a pressão alta dobra se ele apresentar sobrepeso.”

Para o autor, dois estereótipos dominam a percepção geral. O primeiro explica o aumento dos casos de obesidade como reflexo de fatores ambientais e psicológicos, excluindo a genética. O segundo considera que o tratamento deve ser prioritariamente dieta e mudança comportamental. No artigo, o médico destaca a nem sempre considerada importância na genética e reúne evidências de sua forte influência na tendência ou na resistência em ganhar peso.

O conceito ajuda a entender porque num ambiente com oferta ilimitada de comida, algumas pessoas permanecem magras enquanto outras precisam comprar roupas cada vez maiores. As constantes recaídas durante uma dieta, e o fato dos regimes nem sempre funcionarem quando o objetivo é manter-se magro, podem ser resultado de adaptações biológicas compensatórias. Ou seja, não é simplesmente falta de disciplina e de força de vontade.

A pergunta que fica é: mas se o nosso código genético não mudou nos últimos anos, porque estamos mais gordos? O autor explica que fatores como comida calórica e barata aliada ao sedentarismo dos tempos modernos criam um “ambiente tóxico” onde a obesidade aparece em quem já tem a tendência. E mais, que os fatores-tóxicos ambientais não excluem os genéticos, na verdade, eles se combinam e a genética determina quem vai engordar.

A descoberta da leptina em 1994 revolucionou o entendimento de como o apetite e o metabolismo se regulam. Estudos mostraram que camundongos com deficiência ou resistência à leptina causadas por mutações genéticas comem mais e engordam precocemente. Pesquisas recentes tornaram evidentes que, tanto o apetite como o metabolismo e a gordura corporal são controlados por fatores genéticos e neuroendócrinos. A grande maioria dos casos de obesidade, no entanto, não possui um único fator desencadeante – a deficiência de leptina, por exemplo – a obesidade humana, assim como a hipertensão, é uma doença complexa e multifatorial que associa predisposição genética e condições ambientais.

Outros estudos também demonstram a contribuição dos fatores genéticos para a regulação da adiposidade corporal. O índice de massa corporal (IMC) de crianças adotadas, por exemplo, é muito mais próximo de seus pais biológicos (com quem eles não compartilham um ambiente comum) do que de seus pais adotivos (com quem eles realmente vivem). Massa corporal é um traço altamente hereditário em seres humanos. A tendência ou a resistência em engordar acontece também em diferentes níveis. Nos últimos 25 anos, a obesidade mórbida vem aumentando em um ritmo muito mais rápido do que a obesidade moderada. Relatório da OMS apontou que 55% dos homens e 62% das mulheres no Brasil estão acima do peso recomendado.

Em contrapartida, os índices mais baixos de massa corporal em adultos quase não se alteraram, o que sugere que enquanto uns são extremamente suscetíveis à obesidade em um ambiente tóxico, outros são relativamente resistentes.

Dieta como tratamento para a obesidade: o rei está nú

A obesidade pode e deve ser tratada prioritariamente com dieta e mudança comportamental. O que nos levou a esse estereótipo? A falta de compreensão da biologia da obesidade. A opinião comum de que o surto de obesidade humana é apenas um problema ambiental e comportamental cai por terra quando se observam as mais de cinco décadas, em que, repetidas vezes, a terapêutica dietética se mostrou falha para alcançar e manter o emagrecimento. Um estudo de 1997 afirmou que cerca de dois terços das pessoas que perdem peso irão recuperá-lo dentro de um ano, e quase todas vão recuperá-lo em cinco anos.

O argumento de que os programas de perda de peso têm melhorado e que esses relatórios não refletem o sucesso dos programas atuais,infelizmente, afirma o autor, não corresponde à verdade. Recentemente foram avaliados programas comerciais de perda de peso com pessoal treinado, dieta de baixa caloria, atividade física, grupos de apoio e aconselhamento sobre mudança comportamental. Apesar desses incentivos, muito poucos mantém o peso perdido.

É preciso ressaltar, no entanto, que um pequeno percentual de pessoas emagrecem com dieta e mudança comportamental e mantém o peso. Entre as estratégias desse grupo bem sucedido, quatro se destacam: alimentação moderada; controle do peso corporal; café da manhã todos os dias; e muita atividade física.

Existem duas possíveis explicações para o fracasso em manter perda de peso. A primeira é psicológica: pessoas obesas não têm força de vontade e disciplina para comer menos e se exercitar mais. É uma opinião cômoda já que transfere a culpa para o paciente na falta de um tratamento eficaz, ocorre que ela carece de fundamento científico. A razão biológica aponta para indícios crescentes de que os esforços para reduzir o peso encontrariam a resistência de potentes adaptações biológicas. Em meio a uma situação de fome, essas adaptações serviriam para nossa sobrevivência, mas em ambientes contemporâneos com abundância de alimento e alto sedentarismo, elas nos mantém muitos quilos acima do ideal.

Em uma época em que nos orgulhamos de praticar a medicina baseada em evidências, então por que a dieta e a terapia comportamental ainda reinam como \"um imperador sem roupas\"? O autor sugere que não temos ainda um tratamento eficaz e seguro para obesidade; e em meio a uma \"epidemia\", os médicos e a saúde pública detestariam reconhecer que não existe uma prevenção eficaz.



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